Praticamente um ano após o lançamento do filme na Itália, La Vita Va Così chegará ao Brasil. Primeiramente, será exibido no 21º Festival de Cinema Italiano no Brasil, que acontece de 5 de novembro a 1 de dezembro de 2026, passando depois para as salas de cinemas brasileiros em 1- de dezembro, com distribuição da Pandora Filmes.
Como a demora para certos lançamentos italianos no Brasil é tremenda – e isso me irrita horrores -, assisti ao filme no começo deste 2026, na Netflix italiana, pouco tempo depois do filme ter sido lançado na plataforma de streaming. Enquanto o Brasil vera a estreia de La Vita Va Cosí, filme do ano passado, a Itália, em dezembro, verá o lançmento de Salute!, novo filme de Milani que está na fase final de pós-produção – deu para entender minha irritação, né!
A Vida é Assim conta a história de resistência de Efisio Mulas, um pastor sardo que não vende sua casa para uma empresa de Milão, que pretende construir um enorme resort de luxo na praia de Bellesa Manna, Sardenha – aliás, praia de nome totalmente ficticio. Mulas enfrenta todo o tipo de assédio da empresa e o amargor da própria comunidade existente nas proximidades. Gravado na cidade de Teulada e em diversas praias da região, como a Praia de Tuerredda, o filme é baseado na história real do pastor sardo Ovidio Marras, que desafiou gigantes do setor imobiliário para proteger suas terras na região de Capo Malfatano, na Sardenha, em uma disputa que levou oito anos.
Antes de partir para a resenha, quero pontuar duas coisas muito importantes. A primeira é que não existe filme ruim, mas sim com execução fraca ou preguiçosa – todo filme envolve um trabalho dantesco para ser realizado e, em tempos do imediatismo das redes sociais e da chuva de conteúdos novos do streaming, é mais do que normal e esperado que muitos filmes entrem nesse baldão de filmes que poderiam ter sido algo de excepcional. A segunda é que não se assiste a um filme da mesma forma que se assiste a outro: um filme de Riccardo Milani deve ser assistido como um filme de Riccardo MIlani, nunca como um filme de Ettore Scola – ou seja, deve ser visto como uma comédia popular italiana contemporânea, de impegno civile, na qual se fará uma crítica muito leve, muitas vezes até mesmo complacente, a certos aspectos sociais e políticos da Itália – algo que vou explicar o porquê de acontecer no cinema contemporâneo italiano em um artigo a parte.
Sendo assim, a resenha abaixo é a que escrevi, em italiano e no começo do ano no Letterboxd. A traduzi para português e, portanto, esta resenha pode servir como um adiantamento do que os brasileiros podem esperar deste filme de Riccardo Milani.
***
Fala-se que este filme faz parte de uma trilogia, que começou com Um Mundo a Parte (Un mondo a parte, 2024). Sendo assim, vou procurar fazer uma comparação entre ambos os filmes sempre que oportuno.
Tem uma frase de Jean Renoir que acredito ser perfeita para descrever que coisa acontece em todos os filmes anteriores e neste novo de Riccardo Milani: “Um diretor faz apenas un filme em sua vida. Depois, o divide em pedaços e o refaz”. Bem, A Vida Vai Assim (La Vita Va Così) possui muito de Um Mundo A Parte e também de Il Posto dell’Anima (2003); possui pedaços de A Anti-Guerra (La Guerra degli Antò, 1999) e até mesmo de Como um Gato na Marginal (Come un Gatto in Tangenziale, 2017). Isto não é uma crítica ao diretor, pelo amor! É apenas algo para se pensar um pouquinho sobre o estilo e sobre o ponto central de todos os filmes escritos, roteirizados e dirigidos por Milani – e é por isto que penso que Um Mundo A Parte e A Vida É Assim não são exatamente parte de uma trilogia, mas sim de alguma coisa muito maior.
A Vida é Assim é, seguramente, um pouco melhro que Um Mundo a Parte em tatíssimos pontos, com alguns escorregões que tornam o filme um pouco fraco e caótico. Aquilo que mais me desagrada é ver como Milani está cometendo erros até mesmo muito simples, básicos e, às vezes, ate mesmo um pouco ingênuos. São erros que dão a impressão de uma direção preguiçosa, um pouco descuidada, quase superficial. Eu fico de coração partido com isso, sobretudo porque são erros (e problemas) cometidos por um cineasta com trocentos anos de experiência nas costas.
Antes de mais nada, devemos prestar atenção em um ponto importante: Milani nunca esprime críticas ásperas nos seus filmes, nem mesmo dirige filmes pesadíssimos. Sempre há um pouco de melancolia e um tom leve, esperançoso, complacente e, infelizmente, até mesmo excessivamente tolerante, bonzinho demais; é algo que nos convida muito mais a refletir do que a se rebelar. E vale lembrar que Milani estrerou no cinema como assistente de direção de Mario Monicelli e, assim como ele, Riccardo escolheu a comédia como o caminho para contar todas as suas histórias e segundo Monicelli disse uma vez, a comédia é um “ato de resitência” que usa o cinema como instrumento para propor questionamentos e para melhorar as pessoas.
O Milani de 2025 é o mesmo Milani de 2003, ou seja, de Il Posto dell’Anima, mas sem aquela mesma coragem de mais de 20 anos atrás: ele respeita a luta pessoal de Efisio Mulas e parece também se posicionar a favor da comunidade local, porém, existe aí uma pequeníssima e desapontadora nuance de crítica a empresa de Milão. A mensagem sobre a especulação imobiliária de uma ilha (Sardenha) e a especulação imobiliária em sí estão presentes na trama, porém o filme toma uma rota excessivamente tolerante, na qual o diretor parece querer agradar a todos. Ô, Riccardo MIlani, meu abençoado, lembre-se que é impossível agradar todo mundo, nem mesmo um potinho de Nutella consegue isso!
Um ponto muito positivo e que chamou a minha atenção foi Giuseppe Ignazio Loi, um simpático e autêntico pastor sardo. Mesmo não sendo um ator, Giusppe atua muito bem, o fazendo até mesmo melhor que alguns dos atores (profissionais) do elenco – Diego Abatantuono e Algo Baglio, no caso. A decisão de colocar no filme um pastor verdadeiro é algo que deve ser respeitado, visto que trás ao filme um enorme toque de realidade que, é sempre bom lembrar, que o filme se baseia em uma história real. Também penso que o filme deveria ter contado com mais pessoas reais e mais atores e atrizes sardos.
La fotografia sembra che il film sia uno spot turistico della Sardegna? Sì. La differenza è che qui tutta la bellezza della Sardegna è importante ed essenziale come punto di difesa dell’isola contro il suo sfruttamento, contro la speculazione edilizia.Insomma, presentare un’isola idilliaca fu una scelta azzeccata da parte di Riccardo; del montaggio, però, non si può dire altrettanto. Non entro nei dettagli: sono sempre i soliti problemi di montaggio che si ritrovano nei suoi film fin da Come un gatto in tangenziale – Ritorno a Coccia di Morto.
Ora, parliamo della sceneggiatura che, secondo me, è il primo grande problema di questo film – con una sceneggiatura messa così, quasi quasi lasciamo perdere sia la fotografia da spot turistico sia il montaggio.
Se in “Un Mondo a Parte” la quantità di storie parallele ha stravolto la sceneggiatura, invece, in “La Vita va Così”, Milani ci presenta una trama che si concentra maggiormente sui personaggi e storie centrali. La storia dovrebbe essere semplice per raggiungere il suo obbiettivo: quello di metterci in una riflessione sulla Sardegna e la speculazione edilizia, interrogandosi sul fatto che la lotta personale di Efisio Mulas sia una scelta onorevole oppure, in fondo, un po’ egoista… e così via. Questo è un punto positivo, dato che il film non si perde in trame parallele che poi non vengono sviluppate o che finiscono per non aver alcun legame con la storia principale.
Nonostante la sceneggiatura non ci presenta una profusione pazzesca di storie parallele, Milani e Astori seguono la ricetta Netflix che ci regala due ceffoni didascalici in faccia: prima all’inizio, quando si stabilisce tutto quello che succederà nelle lunghissime due ore di film, e poi alla fine, con un lungo e fastidioso dialogo che ci spiega tutto il film. Questo tono didascalico toglie la forza del film, rendendo una storia prolissa e un film purtroppo caotico.
Se la sceneggiatura è piena di problemi, cliché e luoghi comuni, la regia de Milani è debole. Ecco il secondo grande problema, secondo me.
Innanzitutto, questo film fu scritto per Netflix, anche se è uscito prima nelle sale e perfino se la strategia ha menzionato la piattaforma di streaming soltanto dopo l’uscita delle sale. É visibile, ragazzi! Da una che ha guardato quasi tutti i film scritti e girati da Riccardo, si percepisce che questa sceneggiatura si discosta quasi completamente dalle sceneggiature precedenti scritte da lui insieme ad altri sceneggiatori.
“La Vita Va Così” è un film così caotico che ci hanno fatto un bel casino con il salto temporale di dodici anni. Il film inizia indicando nei sottotitoli l’anno in cui è ambientata la scena; poi, all’improvviso, queste indicazioni spariscono ed ecco Virginia Raffaele con i capelli lunghi e Aldo Baglio con ciuffi bianchi nella barba (gli unici segni visibili che il tempo è trascorso). Non ci sono segni che trasmettono chiaramente che il tempo è trascorso, ci sono sfumature che lasciano allo spettatore il compito di indovinare, a prescindere, quando si svolgano tutte le scene successive – per esempio, la scena al bar, dove tutti guardano la finale del Mondiale del 2006.
Ancora sulla sceneggiatura e regia caotiche, entrambi finiscono per creare un’interessantissima e divertente (e forse non intenzionale) tensione saffica tra Francesca e Giovanna. Milani e Astori hanno fatto anche un piccolo casino (magari anche non intenzionale) con Efisio Mulas che, a un certo punto del film, la sua testardaggine ha fatto voltare gabbana un sacco di gente, che all’improvviso hanno iniziato a fare il tifo per l’azienda milanese e per la comunità…
E no, questo film non è lungo come un fenicottero: è un film allungato come un po’ di burro spalmato su una grossissima fetta di pane (grazie, Bilbo Baggins). È ripetitivo da morire: scene, inquadrature e dialoghi si ripetono continuamente, sembra allungato apposta solo per fare minutaggio. E quando un film viene tirato per le lunghe per qualsiasi motivo, si rischia di ottenere un film noioso. Penso che “La Vita Va Così” è un film con una storia che potrebbe essere raccontata meglio in 90 minuti, senza compromettere il suo messaggio e, chissà, sarebbe un film davvero potente.
Alla fine, tutto rimane in superficie: la riflessione, la critica, l’ironia, la risata. Secondo me, la parola che descrive meglio questo film per me è “quasi”: quasi riuscito, quasi convincente.
Sicuramente l’unica cosa che Milani voleva fare era raccontare una storia vera che ha ancora senso oggi. Lui intendeva soltanto trasmettere un messaggio, prendere una posizione di fronte a un problema sociale (e politico), parlare di qualcosa che lui riteneva importante e addirittura farci riflettere un po’… e in tutto questo ci riesce, anche se timidamente e caoticamente. Anche se la riflessione è un po’ debole e se Milani ha preso una via così comoda e dimenticabile, persino se lui ha scelto di dare troppa priorità al messaggio piuttosto che alla forma (un problema quando parliamo deicinema), lui riesce comunque a toccare, con diversi gradi di intensità, il cuore di alcune persone.
Mi raccomando, se volete guardare questo film almeno una volta, allora guardatelo nel modo giusto. Questo è un dramedy leggero, buonista e imperfetto di Riccardo Milani, adattato ai nuovi tempi (didascalici e ripetitivi) di Netflix. Non guardatelo mai come se fosse un capolavoro di Ettore Scola, altrimenti, finirete per restare molto delusi, e pure per niente.

